Demanda pode mudar lógica do arroz
Grande parte das discussões do setor esteve concentrada em fatores ligados a oferta
Nos últimos anos, grande parte das discussões do setor esteve concentrada em fatores ligados à oferta - Foto: Canva
O mercado do arroz volta a ser analisado em um momento em que a formação de um novo El Niño forte no Pacífico recoloca no centro do debate os riscos climáticos, os impactos produtivos e os possíveis reflexos sobre a logística. A avaliação é de Sergio Cardoso, diretor de operações na Itaobi Representações.
Nos últimos anos, grande parte das discussões do setor esteve concentrada em fatores ligados à oferta, como produção, clima, área plantada, exportações e quebras de safra. Essa leitura ganhou força em diferentes ciclos, especialmente quando eventos climáticos passaram a afetar regiões produtoras e a provocar preocupações com enchentes, excesso de chuva e dificuldades no escoamento.
No entanto, a análise levanta uma questão considerada cada vez mais relevante para o mercado: o verdadeiro problema do arroz pode não estar apenas na produção, mas também na demanda. Mesmo diante de problemas climáticos globais, os preços já não apresentam a mesma reação observada em outros momentos históricos, o que sugere uma mudança na dinâmica do setor.
Entre os fatores que ajudam a explicar esse comportamento estão as transformações nos hábitos de consumo. A alimentação das famílias mudou, a competição entre alimentos aumentou e os ultraprocessados ganharam espaço. Além disso, parte da renda dos consumidores passou a disputar espaço com outros tipos de consumo, reduzindo a previsibilidade da demanda por alimentos tradicionais.
Essa combinação indica que o mercado pode estar entrando em uma nova fase, menos dependente apenas da produção e mais conectado ao comportamento do consumidor. O debate também envolve o impacto do El Niño sobre o arroz do Mercosul, o histórico dos preços, o consumo per capita, as exportações, a indústria, a logística e o futuro da demanda global.
Mais do que uma discussão sobre safra, o tema aponta para uma possível transformação estrutural no mercado. A pergunta central é se o arroz ainda enfrenta principalmente um problema de produção ou se o setor passa a lidar com uma nova dinâmica de consumo nos próximos anos.